Perfil tumoral e testes genômicos no câncer: o que muda no tratamento

há 1 semana · 7 min de leitura
Perfil tumoral e testes genômicos no câncer: o que muda no tratamento
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O perfil tumoral por testes genômicos representa uma das mudanças mais significativas na oncologia das últimas décadas. Ao sequenciar o DNA das células cancerosas, médicos identificam mutações, amplificações e outras alterações genéticas específicas daquele tumor individual. Essa informação permite escolher terapias-alvo direcionadas às vulnerabilidades moleculares do câncer, otimizar o uso de imunoterapia e, em muitos casos, evitar tratamentos que provavelmente não funcionarão. Compreender a diferença entre alterações somáticas (adquiridas pelo tumor) e germinativas (herdadas) é fundamental para interpretar corretamente esses exames e suas implicações.

O que é o perfil tumoral genômico

O perfil tumoral genômico é a análise das alterações genéticas presentes exclusivamente nas células do câncer. Diferentemente dos testes germinativos — que investigam mutações herdadas de pai e mãe, presentes em todas as células do corpo desde o nascimento —, o sequenciamento tumoral busca mutações somáticas que surgiram durante a vida, apenas no tecido canceroso. Essas alterações incluem mutações pontuais em genes-chave, amplificações (cópias extras de genes), fusões gênicas, e biomarcadores como carga mutacional tumoral (TMB, do inglês tumor mutational burden) e instabilidade de microssatélites (MSI).

Os painéis genômicos tumorais mais utilizados avaliam simultaneamente dezenas a centenas de genes conhecidos por influenciar o comportamento do câncer e a resposta a medicamentos. Tecnologias de sequenciamento de nova geração (NGS) tornaram possível obter esse perfil abrangente a partir de pequenas amostras de biópsia ou, em alguns casos, de DNA tumoral circulante (ctDNA) no sangue — a chamada biópsia líquida.

Como funciona

O processo começa com a coleta de material tumoral, geralmente por biópsia ou cirurgia, ou de uma amostra de sangue quando se utiliza biópsia líquida. O laboratório extrai o DNA das células cancerosas e realiza o sequenciamento dos genes incluídos no painel escolhido. Algoritmos especializados comparam as sequências obtidas com o genoma de referência, identificando variantes somáticas clinicamente relevantes.

O laudo resultante lista as alterações detectadas e, idealmente, classifica cada uma quanto à evidência científica de sua relevância terapêutica. Por exemplo, uma mutação ativadora no gene EGFR em adenocarcinoma de pulmão pode indicar benefício com inibidores de tirosina quinase como erlotinibe ou osimertinibe. Amplificação do gene HER2 em câncer de mama ou gástrico sinaliza resposta a trastuzumabe. Fusões do gene ALK em câncer de pulmão de não pequenas células apontam para inibidores de ALK. Além disso, marcadores como alta carga mutacional (TMB elevado) ou alta instabilidade de microssatélites (MSI-H) podem predizer resposta a imunoterapia com inibidores de checkpoint imune, independentemente do sítio primário do tumor.

É importante ressaltar que o perfil tumoral não substitui o teste germinativo quando há suspeita de síndrome hereditária de predisposição ao câncer. Se o sequenciamento tumoral detectar mutação em gene de risco hereditário (como BRCA1, BRCA2, TP53, Lynch), pode ser necessário confirmar por teste germinativo se a variante também está presente nas células normais, pois isso teria implicações para o paciente e seus familiares.

Quando é indicado

As indicações clínicas variam conforme o tipo de tumor, o estadiamento e as diretrizes de cada sociedade médica. De modo geral, o perfil genômico tumoral é recomendado em:

  • Câncer de pulmão de não pequenas células avançado ou metastático, para identificar mutações em EGFR, ALK, ROS1, BRAF, MET, RET, NTRK e outras alterações acionáveis;
  • Melanoma metastático, para detectar mutações em BRAF e orientar terapia com inibidores de BRAF e MEK;
  • Câncer colorretal metastático, para avaliar status de RAS (KRAS e NRAS), BRAF, HER2, MSI e outras alterações que influenciam a escolha de terapia-alvo e imunoterapia;
  • Câncer de mama metastático ou localmente avançado, especialmente para avaliar amplificação de HER2, mutações em PIK3CA, ESR1 e outros alvos emergentes;
  • Tumores de sítio primário desconhecido, para buscar biomarcadores que orientem tratamento;
  • Cânceres raros ou refratários, quando as opções de tratamento padrão se esgotaram e busca-se identificar alvos terapêuticos em estudos clínicos ou uso off-label.

Diretrizes internacionais, como as da National Comprehensive Cancer Network (NCCN) e da European Society for Medical Oncology (ESMO), e nacionais, publicadas por sociedades brasileiras de oncologia, orientam em quais situações o teste está indicado. A decisão cabe ao oncologista, considerando o contexto clínico individual.

No Brasil

A disponibilidade e o acesso ao perfil tumoral genômico no Brasil variam consideravelmente. Laboratórios privados de referência oferecem painéis de NGS para câncer, com custos que podem ultrapassar alguns milhares de reais. Planos de saúde e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ainda não incluem de forma universal e padronizada todos os painéis genômicos tumorais no rol de procedimentos obrigatórios; a cobertura depende de negociação, apresentação de evidência clínica e, em alguns casos, de decisões judiciais.

No Sistema Único de Saúde (SUS), o acesso é mais limitado. Alguns centros de oncologia de referência e hospitais universitários dispõem de testes genômicos tumorais para situações específicas, mas a oferta não é uniforme em todo o país. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC) avalia continuamente a incorporação de novas tecnologias diagnósticas e terapêuticas; portanto, a situação pode mudar. Recomenda-se confirmar a disponibilidade com o serviço de oncologia ou genética do hospital de referência.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) regula kits diagnósticos e aprova medicamentos-alvo condicionados a biomarcadores específicos, o que impulsiona a adoção dos testes na prática clínica.

Limitações e cuidados

Embora poderoso, o perfil tumoral genômico possui limitações que devem ser compreendidas. Nem toda alteração detectada terá terapia aprovada ou disponível; muitas variantes ainda estão em fase de investigação clínica. A presença de uma mutação acionável não garante resposta ao tratamento-alvo, pois outros fatores biológicos e a heterogeneidade tumoral influenciam o resultado. Além disso, os tumores podem desenvolver resistência ao longo do tempo, exigindo novas biópsias e reavaliações.

A interpretação do laudo exige expertise em oncologia de precisão. Variantes de significado incerto (VUS, do inglês variants of uncertain significance) são comuns e não devem ser usadas para orientar tratamento sem evidência adicional. A qualidade da amostra e a profundidade do sequenciamento também afetam a sensibilidade do teste.

Outro ponto importante é a diferença entre alterações somáticas e germinativas. Se o relatório tumoral sugerir mutação em gene de predisposição hereditária, o paciente deve ser encaminhado para aconselhamento genético e, se indicado, realizar teste germinativo confirmatório, pois isso pode impactar o rastreamento e a prevenção em familiares.

Por fim, questões éticas, de privacidade e de custo-efetividade seguem em debate. O uso criterioso, baseado em evidências e integrado ao julgamento clínico, maximiza os benefícios e minimiza custos e ansiedade desnecessária.

O perfil tumoral genômico é uma ferramenta valiosa na oncologia moderna, mas sua indicação e interpretação devem ser conduzidas por equipe especializada. Procure sempre um oncologista ou serviço de oncogenética para discutir se o teste é apropriado no seu caso e como os resultados podem orientar as melhores opções de tratamento.

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