
Quando o veterinário deu a notícia de que Rosie, uma cadela vira-lata de oito anos, tinha um câncer de mastócitos terminal e apenas alguns meses de vida, seu tutor, o engenheiro australiano Paul Conyngham, poderia ter aceitado o destino. Em vez disso, ele fez o que sabe de melhor: abriu o computador e usou inteligência artificial para criar uma vacina de mRNA personalizada que reduziu os tumores em 75% .
O que torna essa história extraordinária não é apenas o final feliz, mas o caminho percorrido. Sem formação em biologia, mas com 17 anos de experiência em análise de dados, Conyngham usou o ChatGPT como ponto de partida. O chatbot o direcionou para o Centro Ramaciotti de Genômica da Universidade de New South Wales (UNSW), na Austrália, e sugeriu o caminho da imunoterapia .
A base genética: sequenciamento e neoantígenos
O processo começou com genética pura. Conyngham sequenciou o DNA saudável de Rosie e o comparou com o DNA do tumor, identificando as mutações específicas que tornavam aquele câncer único . É exatamente o mesmo princípio que temos explorado aqui no Geneflix em artigos sobre sequenciamento de nova geração (NGS) e diagnóstico de doenças raras: a comparação entre o genoma normal e o tumoral revela as alterações que impulsionam a doença.
Com os dados em mãos, ele utilizou o AlphaFold, o famoso programa de IA da Google DeepMind que prediz estruturas de proteínas, para identificar quais mutações geravam proteínas alteradas – os chamados neoantígenos. Estes são como “bandeiras vermelhas” exclusivas do tumor, que o sistema imunológico pode aprender a reconhecer . A partir daí, a IA gerou uma “receita” de meia página: a sequência genética que codificava esses neoantígenos .
A ciência por trás da vacina: mRNA como instrução molecular
Essa “receita” foi entregue aos cientistas do Instituto de RNA da UNSW, que sintetizaram a primeira vacina de mRNA personalizada para um cão . A tecnologia é a mesma que revolucionou o combate à COVID-19 e que já discutimos em detalhes no artigo “RNAterapia: Como as Terapias com RNA Estão Revolucionando a Medicina”.
A vacina de mRNA funciona como um manual de instruções: ao ser injetada, ela ensina as células do sistema imunológico de Rosie a produzir os neoantígenos identificados no tumor dela. O sistema imune, então, passa a caçar e destruir qualquer célula que carregue essas proteínas – ou seja, as células cancerígenas . É a personificação do conceito de medicina personalizada: uma terapia desenhada exclusivamente para o perfil genético de um único paciente (neste caso, uma paciente canina).
O resultado surpreendeu até os pesquisadores. Rosie recebeu a vacina em dezembro e, em poucas semanas, o tumor que tinha o tamanho de uma bola de tênis encolheu pela metade . A cadela que estava perdendo a mobilidade voltou a correr atrás de coelhos .
Conexão com os avanços em humanos
A história de Rosie não é apenas um milagre doméstico – ela é uma prova de conceito para a oncologia humana. Como destacou o professor Martin Smith, da UNSW: “Isso levanta a questão: se podemos fazer isso por um cão, por que não expandir para todos os humanos com câncer?” .
E os avanços estão acontecendo em paralelo. Grandes farmacêuticas como Moderna e Merck já têm resultados promissores com a vacina mRNA-4157 (V940) em combinação com o imunoterápico Keytruda. Em estudos de fase 2b com pacientes com melanoma (o tipo mais agressivo de câncer de pele), a combinação reduziu o risco de recorrência ou morte em 49% em cinco anos de acompanhamento . Os dados são tão robustos que a FDA já concedeu o status de “terapia inovadora” à vacina .
A BioNTech (a mesma da vacina da Pfizer contra a COVID) também avança com sua vacina autogene cevumeran (BNT122) para câncer de pâncreas, um dos mais letais. Em estudo de fase 1, pacientes que desenvolveram resposta imune à vacina não tiveram recidiva em 18 meses .
O princípio é exatamente o mesmo usado em Rosie: sequenciar o tumor do paciente, identificar suas mutações únicas (neoantígenos) e fabricar uma vacina de mRNA sob medida . É a farmacogenética e a genômica aplicadas em sua forma mais avançada
Referências bibliográficas:
BBC News Brasil. (2024). Como funciona vacina contra câncer que será testada em países europeus.
Nova vacina contra câncer de pele reduz em 49% risco de morte e retorno do tumor
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